Quem lê / Who's reading

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Dementors



Gostam dos livros da saga “Harry Potter”? Bom, eu gosto. Uma escrita assim sabe bem, por vezes. Ser transportada a um mundo diferente, em que a magia ainda existe, imaginar que ela existe aqui mesmo ao meu lado, até na plataforma do comboio, naquela que eu não vejo - que a magia existe, só que eu não a consigo ver. Se assim fosse, era triste, talvez, mas a ideia não deixa de exercer algum fascínio.
Depois, temos o leque de personagens; identificamo-nos mais com uma ou com outra, e, apesar de serem personagens de um mundo mágico, não deixamos de as conhecer, aqui, no Mundo dos Muggles.
Hoje não vou falar sobre os heróis, mas antes sobre os vilões.
Fiz uma vez uma brincadeira, de encontrar personagens dos livros em algumas pessoas que conheço. E sim, havia quem pudesse ser o vilão mais óbvio, Aquele Cujo Nome Não Não Pode Ser Pronunciado. Mas havia outros vilões que surgiam, os Dementors.
Os Dementors são guardas de Azkaban, a prisão do mundo mágico. A sua arma é o seu dom de sugar a felicidade às pessoas que atacam. Literalmente. Aproximam-se da sua vítima e vemos a sua felicidade a vaporizar-se para dentro da boca horrenda e enorme dos Dementors, que, assim, roubam toda a felicidade a quem não se consegue proteger. A vítima fica oca, como ficará alguém a quem a felicidade foi roubada. Por outro lado, os Dementors não parecem ficar nem um pouco mais felizes, depois de absorvida uma boa dose de felicidade. Pelo menos a julgar pelo ar sombrio que mantêm e pela sua saída em busca de mais vítimas. É como roubar uma linda rosa de um jardim, e a seguir, deixá-la cair na valeta mais próxima. Matando a rosa e entristecendo o jardim. Para nada…
Acho que há, de facto, muitos Dementors por aí. Uma sala pode estar cheia de pessoas felizes, bem dispostas, animadas em conseguir algo. Quando entra um Dementor, a sala fica de imediato pesada, escura, a felicidade começa a escoar lentamente dos corpos de cada um. Da mesma forma, quando o Dementor sai, o sentimento de alívio é notório, ainda que ninguém o verbalize.
Todos já nos cruzámos com um destes Dementors, e talvez por isso às vezes dê por mim a acreditar no mundo de Harry Potter. Por isso e porque ainda procuro magia na vida.
No mundo mágico, o feiticeiro deve encontrar uma memória, aquela memória mesmo boa e feliz que tem, e essa memória produzirá um feitiço forte o suficiente para afastar o Dementor.
Na vida dos Muggles, deparo-me muitas vezes com dúvidas sobre a melhor forma de enfrentar estes vilões, porque esta memória ajuda, mas nem sempre funciona com a eficácia prometida nos livros.
E, há pouco tempo, encontrei uma resposta a esta pergunta numa prateleira de uma livraria, no livro “Os dias do avesso”, transcrição de algumas conversas de Isabel Stilwell e Eduardo Sá no programa de rádio homónimo.
E porque naquele dia precisava mesmo ler aquelas palavras, não resisto a aqui publicar algumas das palavras de Eduardo Sá, esperando que também a alguns de vocês dêm uma resposta:

“Mas fiquei a pensar que andam por aí muitos Dementors. Pessoas que parece que nos sugam a felicidade. No emprego, no autocarro, numa loja em que se entra, aos saltinhos, feliz, com a alma levezinha, e se sai pesado, cansado. Porque há pessoas que com uma frase, dois comentários, conseguem sugar-nos a felicidade.
(…)
Há muitas pessoas que ficam incomodadas com o facto de sentirem alguém com vida, com esperança, com capacidade de enamoramento com tudo o que está ao seu lado. E, de facto, essas pessoas não descansam sem as sugar naquilo que elas têm de melhor. Ás vezes, essas pessoas são professores e sugam a felicidade dos alunos. Às vezes, acontece ao contrário. Às vezes, são pais e sugam a felicidade dos filhos. Às vezes, são pessoas que se cruzam na nossa vida e não param de sugar aquilo que reconhecem de saudável em nós. Uma memória (tem que ser mágica!) ajuda. Mas mais importantes, ainda, são as nossas convicções. As pessoas que nos querem sugar ajudam-nos muito. Quando nos obrigam a olhar bem para dentro de nós, e a perguntar-nos em que é que acreditamos, dão-nos a mais preciosa de todas as ajudas.
(…)
Os guardas de Azkaban, que é uma prisão, estão presos. Mais presos do que eles imaginam. É claro que, enquanto prendem os outros, distraem-se de tudo aquilo que os suga, por dentro. Mas Azkaban fica mais perto das nossas casas ou dos nossos trabalhos do que parece. E, sendo assim, a forma de não ficarmos Dementors passa por lhes explicarmos que só nos suga quem se sente mortificado por dentro. E que, por mais que o desejem, o medo com que nos tentam impedir de perceber o que se passa dentro deles não nos impedirá de os compreender. Nunca vencemos o mal. Vencemos, isso sim, o medo que o mal nos impõe (mesmo depois de vacilarmos). E o medo do mal vence-se por agarramos o melhor de nós. Essa é a magia.

E atrevo-me a deixar uma ideia mais para além da que Eduardo Sá nos dá. Assim como os Dementors conseguem esvaziar uma sala de felicidade, também existem aqueles que, da mesma forma, enchem essa mesma sala de alegria e de um bem estar aconchegante, muitas vezes recorrendo a algo tão simples como um sorriso de compreensão, uma palavra de alento, ou um simples “como estás hoje?”. Essas pessoas são o outro lado dos Dementors, ajudam-nos a manter o equlíbrio. Nos livros de Harry Potter, são, talvez os Aurors, uma espécie de polícias, que protegem os feiticieiros contra os vilões do mundo mágico.
E porque tenho a sorte de ter algumas pessoas assim na minha vida, aqui lhes deixo o meu obrigada, obrigada por não deixarem que a felicidade na minha vida seja sugada. Não preciso dizer nomes, sabem quem são.

Um beijo, e um sorriso.

***

Do you like the books from the "Harry Potter" saga? Well, I like it. Such a writing is nice, sometimes. To be transported to a different world, where magic still exists, to imagine it exists right here beside me, on the platform in the train, the one I have not seen - that magic exists, but I can not see it. If so, it would be sad, perhaps, but the idea is still fascinating.
Secondly, the range of characters; we identify ourselves more with one or the other, and despite they are characters in a magical world, we know them, here, in the Muggles’s world.
Today I will not talk about the heroes, but rather about the villains.                         
I made a play once, to find characters of the books in some people I know. And yes, there were those who could be the most obvious villain, He Whose Name Can Not Be Spoken. But other villains came to mind, the Dementors.
The Dementors are guards of Azkaban, the prison of the wizard world. Their weapon was their ability to suck happiness from the people they attacked. Literally. They approached their victim and we would see happiness vaporizing into the mouth of the huge and hideous Dementor, who thus rob all happiness to those who could not protect themselves. The victim got hollow, as would be someone whose happiness was stolen. Moreover, the Dementors not seem to get even a little happier after absorbing a good deal of happiness. At least judging by grimly look they kept and since they went out in search for more victims. It's like stealing a beautiful rose from the garden, and then drop it in the nearest ditch. Killing the rose and saddening the garden. For nothing ...
I think there are indeed many Dementors around. A room may be full of happy people, well disposed, animated about achieving something. When a Dementor enters, the room is immediately heavy, dark, happiness starts to slowly go away from the people around. Likewise, when the Dementor igets out, the feeling of relief is notorious, though nobody verbalizes it.
All of us have crossed with one of these Dementors, and maybe that's why sometimes I believe in Harry Potter’s world. And because I still search for magic in life.
In the magical world, the sorcerer must find a memory, that memory you have which is good and happy, and that memory will produce a spell strong enough to ward off the Dementor.
In the lives of Muggles, often I am faced with questions about the best way to tackle these villains, because this memory helps, but does not always work with the efficiency promised in the books.
And, recently, I found an answer to this question on a shelf of a bookstore, in the book "The days inside out," transcript of conversations between Isabel Stilwell and Eduardo Sá, on the radio program with the same name.
And sinceb that, on that day I really needed to read those words, I can not resist posting here some of Eduardo Sá’s words, hoping some of you may also find an answer here:

"But I think that many Dementors walk around. People who seem to suck our happiness. At work, on the bus, in a store you enter, hopping, happy, really light soul; and you leave heavy, tired. Because there are people which with one sentence, two comments can suck us happiness.
(...)
There are many people who are uncomfortable with the fact that someone feels alive, with hope, capable of falling in love with everything around. And, indeed, these people do not rest without sucking the best they have. Sometimes these people are teachers and suck the happiness of students. Sometimes it happens in reverse. Sometimes they are parents and suck the happiness of children. Sometimes, it’s people who cross our lives and do not stop sucking what they recognize of healthy in us. A memory (it must be magical!) helps. But more important, though, it’s our beliefs. People who want to suck our happiness help us a lot. When they force us to take a good look within ourselves, and ask ourselves what we believe, they give us the most precious of all aid.
(...)
The guards of Azkaban, which is a prison, are imprisoned. They are more prisoners than they imagine. Of course, while holding others, they distract themselves from everything that sucks them inside. But Azkaban is closer to our homes or our jobs than it seems. And thus, the way not to became a Dementor is to explain that the only ones who suck us are the ones who feel mortified inside. And that, as much as they wish, the fear with which they try to prevent us from realizing what is inside them, they will not prevent us from understanding them. We will never overcome evil. But we can overcame the fear that evil imposes upon us (even after falter). And the fear of evil is beaten by holding on to the best of us. That's the magic. "

And I dare to leave another though, beyond the one Eduardo Sá gives us. Like the Dementors can empty a room of happiness, there are also those who, likewise, fill the same room with joy and a cosy well being, often resorting to something as simple as a smile of understanding, a word of encouragement or a simple "how are you today?". These people are the other side of the Dementors, who help us to keep balance. In Harry Potter’s books, they are the Aurors, maybe, a sort of policemen, who protect the wizards against the villains of the magical world.
And because I am lucky to have some people like that in my life, here I leave them my thanks, thanks for not letting happiness in my life being sucked out. Needless to say names, they know who they are.

A kiss and a smile.

11 comentários:

  1. bela reflexão.

    deixo um sorriso e os votos de um bom fim de semana.

    beij

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  2. a frase que me ficou:

    "Nunca vencemos o mal. Vencemos, isso sim, o medo que o mal nos impõe (mesmo depois de vacilarmos). E o medo do mal vence-se por agarramos o melhor de nós. Essa é a magia.”

    obrigada
    um beijo e um sorriso:)

    ps - adorei esse post.

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  3. Faz todo o sentido !

    Beijinho e bom fim de semana.

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  4. E tens muita razão! Podemos sim, modificar a vida das pessoas, tornando-as mais alegres com aqueles pequenos gestos que tantas vezes deixámos em casa quando saímos para a rua. Um bom dia, como está...dado sem pressa, prontos a ouvir a resposta e não aquele olá corrido sem muitas vezes sequer olharmos a pessoa; um sorriso sempre nos lábios e uma mão sempre pronta a ajudar. A vida, pensamos e dizemos nós, faz-nos andar ocupados, sem tempo para nada; isso não é verdade...há sempre tempo para escutar um amigo, visitá-lo ou fazer-lhe um simples telefonema. Costumo dizer que não temos tempo para isso, mas se o amigo morre, deixamos até o emprego para irmos ao funeral; muitas vezes nem sabíamos que estava doente. Boa reflexão, amiga. Um beijinho e parabéns pelo tema. Fica bem!
    Emília

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  5. Olá Isa,
    Venho para saber das novidades e trazer meu abraço. Aliás, digo de passarem, gostei muito dessa sua postagem, achei soberba, parabéns!
    Tenhas uma semana repleta de alegrias...

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  6. eu acredito no avesso dos mundos

    de outra forma, não escreveríamos


    deixo sorrisos e um abraço


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  7. A suprema arte do professor é despertar a alegria na expressão criativa do conhecimento,
    dar liberdade para que cada estudante desenvolva sua forma de pensar e entender o mundo,
    assim criamos pensadores, cientistas e artistas que expressarão em seus trabalhos aquilo que aprenderam com seus mestres.
    ( Albert Einstein)
    Hoje Dia Dos Professores no Brasil
    Deixo meu carinho a você independete de ser (UM MESTRE)dentro de uma sala de aula,
    pois os pais são professores dos seus filhos.
    Os professores é a continuadade absoluta durante anos (Mestre)dos nossos filhos.
    Educar é dever de casa dos pais aos (Mestres) o dever de ensinar
    a se defender dos obstaculos triste e cruel do analfebetismo.
    Nunca sentei na cadeira de uma faculdade,
    mais devo as minhas professoras cada pagina do meu livro.
    Eu respeito essa classe tão sofrida em nosso Pais.
    Deus ilumine a cada (Mestre)que nossos
    governantes um dia não muito distante valorize
    aqueles que formaram nossos presidentes.
    Linda semana independente de sua formação
    escolar.
    Beijos no coração,Evanir...

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  8. O texto é muito bem escrito , mas te confesso e não fica brava comigo. Não gosto de Harry Potter, porém a filosofia é bem vinda. Beijo

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  9. Acredito na existência dos dementores. Há pessoas capazes de nos sugarem a felicidade.

    Beijinho

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  10. Compreendo imenso!
    Existem de facto pessoas, que são capazes de nos deixar estafados. Longe delas então deveremos estar!


    :)

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  11. Um texto interessante para refletir !

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