Canção em moldes clássicos ----- Nuno Júdice,
in Cartografia de Emoções
Tentei descrever o
amor, do ponto de vista da razão,
Subvertendo o que a
natureza humana dele pretende: um fim
Para o desejo, para a
desordem dos sentidos,
Para a falta de
entendimento de quem vive
Solitário. Não sei o
que descrevi, se esse conjunto de emoções que se concentra
No instante da paixão,
transformando a alma numa fogueira feita
De mágoa e alegria, se
o instante em que toda a percepção é absorvida por ti,
Mesmo que tu me peças
que não perca
Juízo e coração, ambos
envoltos na estranha tormenta que os teus olhos
Desencadeiam.
Em tudo isto, é certo
que reina a cegueira que nasce desta contradição
Entre tormento e
júbilo. Saber que me amas, como
Eu te amo, são os dois
pratos da balança em
Em que ambos pesamos a
relação que nos envolve. Um trabalho de equilíbrio
sustentando a esquiva
memória que se torna presente em cada novo
Contentamento,
obriga-me a repartir o que dás por mim, e por ti, para que nada
sobre do que nos
junta.
É que o amor é isto
que se consome até esse nada que renasce, e o próprio nada
É tudo o que dele sai.
Os teus lábios
Que se fecham quando
me olhas, e os teus olhos
Que se abrem quando me
falas, as tuas palavras que me distraem do que me dizes, e o
que dizes,
Quando as minhas
palavras te distraem. Assim estive algum tempo a descrever o amor,
até que o amor me
descreveu, e ambos nos tornámos claros
Um para o outro, como
o amor descreve.